Criando um programador

De tempos em tempos surge nas listas de discussão de tecnologia a conversa sobre estágio, como aprender e como se “formar” um programador. Eu tive uma experiência interessante sobre isso e acho que finalmente é a hora de escrever sobre o assunto.

Há algum tempo atrás, quando estava saindo de uma empresa e indo pra outra, resolvi que poderia usar o “downtime” entre uma e outra pra escrever um produto que já tinha na cabeça a algum tempo. Sentei a bunda na cadeira e passei 3 semanas escrevendo muito código, quando finalmente comecei a trabalhar no novo emprego, meu tempo disponível pra ferramenta diminuiu consideravelmente e eu pensei que talvez fosse a hora de encontrar alguém pra me ajudar.

Considerando o meu estado de “empreendedor liso”, não poderia contratar um desenvolvedor mesmo, então fui pra contratar um estagiário. A luta contra os currículos foi dura (deveria ter escrito isso antes ) e no fim só um realmente me interessou, especialmente porque a pessoa dizia que sabia ler e escrever em inglês.

Primeira conversa

Nos encontramos pra uma entrevista formal, conversamos sobre a empresa, meus planos de dominação mundial e o que ele deveria fazer. Descobri que ele havia morado nos EUA durante um tempo, então realmente sabia ler e escrever inglês e pelo papo parecia ser uma pessoa interessada.

A experiência dele era pouca, não teve uma formação legal em orientação a objetos e, mesmo estando cursando a mesma graduação que eu cursei, o fato dele ter tido professores diferentes não deu a ele o conhecimento que eu esperaria que ele já tivesse com o tempo de curso que ele tinha. Além disso ele teria que aprender Rails, HAML, Solr e todas as tecnologias que já estavam sendo usadas na aplicação e isso não seria uma tarefa simples.

Shu-Ha-Ri

Na época, eu estava lendo o Agile Software Development: The Cooperative Game do Cockburn e estava fisgado na idéia do Shu-Ha-Ri, que são os 3 momentos do aprendizado, uma idéia que surgiu no teatro Nô japonês. Segundo o Shu-Ha-Ri, a técnica pode ser dividida em 3 estágios diferentes, Shu ou aprender, Ha ou separar e Ri ou transcender.

No estágio do Shu, o aprendiz somente segue os passos já definidos pelo mestre, sem pensar muito sobre o que está sendo feito. No Ha, o aprendiz já começa a pensar sobre o que ele está fazendo, porque ele deve fazer daquela forma. E no Ri o aprendiz define a sua própria forma, baseado nas suas capacidades, conhecimento e experiências de vida. Ele deixa de ser um aprendiz e agora é um mestre de si mesmo, não mais repetindo o caminho do mestre, mas definindo o seu próprio.

Começando o caminho

Pra começar com o Shu, era necessário aprender e repetir, então a primeira atividade dele no estágio não seria mexer na aplicação, que já estava relativamente pronta. O primeiro mês dele deveria ser criar um blog e escrever resumos com exemplos de código de cada um dos capítulos iniciais do Agile Web Development with Rails.

Na época ele deve ter pensado que eu era meio louco (hoje já tem certeza) e na verdade foi bem um tiro no escuro mesmo, eu nunca tinha feito isso antes com um estagiário, mas eu tinha que arriscar. Outro detalhe importante, ele não ia receber nada por esse primeiro mês, os R$ 500,00 reais que ele iria receber foi comprado em livros (lista no final do post), porque ele ainda tinha muito de teoria a melhorar.

Seguindo o caminho

Depois do primeiro mês só de blog e de ver como a aplicação funcionava, ele começou finalmente a escrever código. Nesse momento, ainda saindo de Shu para Ha, era necessário que eu constantemente explicasse os passos necessários pra que ele executasse as tarefas. Primeiro porque eu tinha um apego especial pelo código da aplicação, que era a minha primeira ferramenta própria, e também porque eu sabia das limitações dele na tecnologia nesse momento.

A maior parte dos trabalhos iniciais era estender funcionalidades já existentes e como a aplicação havia sido escrita a uma única mão, os padrões eram claros e fáceis de se entender. O estilo do código era único e nesse momento a maior parte do trabalho dele era continuar seguindo esse estilo e complementando as funcionalidades com código que fosse sempre parecido ou derivado do que já existia.

Com um pouco mais de tempo, ele já estava escrevendo funcionalidades únicas, criando código do zero e implementando os seus próprios modelos, ainda baseados no que já existia dentro da aplicação, mas já estava claramente em seu momento Ha. Não era mais necessário me perguntar como tudo funcionava, ele já havia criado o seu próprio entendimento sobre como e o que era a aplicação e começava a enxergar ela com os seus próprios olhos. Eu já descrevia as funcionalidades sem explicar detalhes específicos de implementação e ele era capaz de implementá-las sem que houvesse necessidade de ser levado pelo caminho.

Transcendendo o caminho

O estágio acabou, ele tomou o seu próprio caminho e tem agora o seu próprio “estilo”, chegou ao seu momento de Ri, não do conhecimento, mas dessa primeira fase de entendimento do trabalho de um programador. Hoje eu vejo que os primeiros passos, naqueles primeiros meses, foram essenciais pra formação e a prática aliada a teoria foram as principais responsáveis por fazer com que ele se tornasse capaz de escrever código útil, que continua na ferramenta até hoje, com praticamente meses de experiência em programação.

Acho que o grande problema que temos hoje na formação é o exagero do ensino no Shu e também o exagero dos aprendizes no Ri. Os professores se perdem eternamente na fase Shu mas os alunos gostariam de estar já em Ri, eles não querem mais passar pela fase de conhecer, querem passar diretamente pra fase do criar, pensando que a rápida passada por cima do conhecimento já vai lhes dar condições de criar algo por eles mesmos.

Programação se aprende com leitura e, principalmente, prática. A criação do blog não era somente pra que ele lesse o livro naquele momento, mas que ele lesse e repetisse o conhecimento. Nós fixamos o conhecimento por repetição, os músculos de um praticante de artes marciais tem uma memória dos movimentos que ele precisa fazer porque ele os repetiu a exaustão e assim também é programar, você repete os passos seguidamente marcar o seu cérebro com aquele caminho, de forma que você já saiba exatamente pra onde vai assim que começa a escrever.

Implementando

Se você tem aprendizes sob a sua coordenação, aplique o Shu-Ha-Ri com eles. Ajude-os a desenvolver o conhecimento um passo de cada vez, mantenha-os no caminho pra que eles possam apreender o conhecimento de forma que eles apliquem o que foi aprendido corretamente. Você só tem a ganhar ao conseguir formar uma mão de obra mais qualificada e capaz de resolver os problemas.

Se você é um aprendiz, antes de tudo, tenha paciência. Você nunca vai chegar ao Ri sem ter passado pelos estágios anteriores. Não force o seu caminho entre as fases, pois isso só vai garantir que você falhe no futuro. Programar, assim como tudo o mais, exige esforço, repetição e interesse.

A grande vitória dessa minha experiência, não foi minha, mas de Pedro, que se esforçou além do normal pra atingir os objetivos. Leu livros, escreveu sobre as suas experiências e continua fazendo isso (se você continuar seguindo no blog dele, vai ver que ele continuou fazendo resumos sobre os outros livros). Ele poderia ter descansado e feito como todos os outros fazem, se esforçar apenas o suficiente pra ter o básico, mas é esse interesse em ir além que faz as melhores pessoas. Sucesso é muito mais persistência do que talento, já que talento sem ação nunca vai levar ninguém a lugar nenhum.

E você, quais são as suas experiências nisso?

Apêndice

E aqui segue a listinha de livros que ele recebeu (ao menos eu acho que tenham sido esses):

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