Agilidade, snake oil, power balances e a falácia do “nós somos diferentes”

Um companheiro de uma das listas que participo recebeu um email bem interessante, e eu preciso fazer alguns comentários sobre isso.

From: Oleg Puzyreff Date: Tue, Jan 4, 2011 at 9:36 PM Subject: Optimized Scrum training course with Dr. Jeff Sutherland, co founder of Scrum To: fulano@sicrano.com Dear Fulano, qaSignature in partnership with Scrum Inc. is offering Optimized Scrum, a new Scrum training course designed to super-accelerate software development and testing. DO NOT take this class if: • You are happy with your job being outsourced; • You already know everything and do not need to learn the latest trends in Software development; • You love to be busy to the point you work late and on weekends; This course is offered two ways: As a one-day course for CSMs, developers and QA staff: http://scrumtraininginstitute.com/classes/show/458 OR As an optional course* packaged as a third day with Scrim Inc's CSM training: http://scrumtraininginstitute.com/classes/show/459 *This optional course is not part of CSM certification program and not required for ScrumMaster certification. I hope to see you there, and let me know if you have any questions.

Dizer que isso é charlatanismo é chover no molhado. Nós vemos produtos e serviços que prometem soluções mágicas pros nossos problemas diariamente, é só olhar todo o burburinho que foi gerado pelas pulseiras Power Balance.

Marketing é vender sonhos, transformar produtos que fazem a mesma coisa que todos os outros fazem em únicos e exclusivos para os seus clientes. O homem atual já sofreu tanta influência desse mesmo marketing que é capaz de perceber onde termina a realidade e começa o bla-bla-bla publicitário.

Mas se as pessoas já tem conhecimento do que é verdade e mentira em uma campanha de marketing, por que elas se dão ao trabalho de comprar produtos como o Power Balance?

Na mini-série que antecede o seriado Battlestar Galactica, a ciborgue Caprica Six faz um comentário interessante para o humano Gaius Baltar, assim que ele descobre que foi usado como ferramenta de espionagem:

[caption id=”attachment_38” align=”alignright” width=”300” caption=”Gaius Baltar e Caprica Six”][/caption]<blockquote>Gaius Baltar: I had nothing to do with this. You know I had nothing to do with this. Caprica Six: You have an amazing capacity for self-deception. How do you do that?</blockquote>

Gaius tenta, de todas as formas, negar a realidade para evitar ter que lidar com as consequências dos seus atos. Com essa ação, ele não está somente demonstrando uma parte da sua personalidade, mas representando um traço comum pra grande parte dos seres humanos, queremos a solução mais simples para os problemas, mesmo que pra isso tenhamos que fingir que não somos mais seres racionais.

A propaganda do curso de Scrum segue a mesma idéia das propagandas do Power Balance. Em momento nenhum o email fala de fatos, ele apela para os sentimentos do receptor da mensagem, começa por um ponto fraco comum, o medo de perder o emprego, depois pra humildade, pois ninguém sabe de tudo e finaliza com a idéia de que o receptor trabalha muito além do necessário.

Do ponto de vista do marketing, seria uma peça ridícula, típica dos primórdios da profissão ou de profissionais de baixa qualidade. Mas quando essa mensagem atinge as pessoas, ela fala o que elas querem ouvir. Ela leva a mensagem de que, magicamente, todos os problemas do indivíduo vão ser resolvidos, afinal, é um curso com o Doutor Jeff Sutherland, co-fundador do Scrum.

Você tem palavras mágicas, dignas dos melhores – ou piores – livros de auto-ajuda disponíveis e um rockstar dos processos de desenvolvimento, o que poderia dar errado?

Por mais que a propaganda seja completamente irreal e o mais puro e completo snake oil, as pessoas vão correr e se matricular, na esperança de que seja dessa vez que eles finalmente vão encontrar o santo graal do software. A solução definitiva que vai aumentar a produtividade absurdamente e transformar você no novo Gandalf da programação, capaz de rescrever o kernel do Linux todo usando somente o Emacs.

A ilusão de que existe uma forma absurdamente fácil e simples de se desenvolver software, que Fred Brooks já comentou não existir no texto “No Silver Bullet — Essence and Accidents of Software Engineering” de 1986, continua sendo uma realidade. As pessoas continuam buscando essa ilusão e, ainda pior, a comunidade ágil, que um dia brigou ferozmente contra essa concepção, tornou-se o status quo e agora vende o mesmo snake oil que os consultores de processo vendiam nos anos 90.

[caption id=”attachment_39” align=”alignleft” width=”300” caption=”Óleo de Cobra - A solução para todos os seus problemas”][/caption]Hoje os livros e textos sobre desenvolvimento ágil de software são equivalentes aos mais ralos livros de auto-ajuda e motivação pessoal que temos no mercado. Autores ignoram fontes, escondem inspirações e se definem como criadores únicos e intocáveis dos seus processos, negando inclusive que tenham sido influenciados por outros processos semelhantes que já existiam fora da esfera do software, como o Lean.

A assinatura do manifesto ágil foi um passo na direção certa, colocou os processos de software a par das mudanças anteriores (de mais de uma década antes) da gestão de pessoas nas disciplinas de administração de empresas. Antes que acordemos tarde, do que nunca acordar, mas não podemos parar aqui.

A comunidade ágil se apresentou como sendo algo novo, sem os vícios do passado, aprendendo com o que as outras disciplinas, fora da computação, já faziam. Não podemos vender charlatanismo, mentiras, poções mágicas que curam ou ressuscitam projetos. Desenvolver software em equipes é difícil, negar isso é tão surreal quanto negar que a gravidade existe.

Se ainda se espera que um dia a engenharia de software possa ser realmente reconhecida como uma engenharia, é melhor pararmos com essa conversa fiada e voltarmos a desenvolver software, que é o que realmente importa de verdade.

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